sábado, 6 de julho de 2024

O gigante que prefere ser pequeno

Portugal perdeu em futebol pela enésima vez contra a França, e isso não deveria ser visto como uma surpresa. 

Claro que todos sabemos da importância vital que (infelizmente) a bola a rolar no relvado tem nos humores do nosso país, e que só essa nossa paixão assolapada, que na verdade é uma doença incurável, faz com que uma nação com tantos problemas estruturais consiga ter dos melhores atletas do Mundo de forma tão consistente. 


Portugal respira futebol, de forma obcecada e obsessiva; o futebol pode unir povos desavindos com a mesma facilidade com que pode estar na origem de guerras civis, e isso pode passar-se em Portugal, dos campeonatos profissionais às últimas divisões distritais, durante um fim de semana. 



Eu, confesso, sou um fã incondicional da bola, mesmo que o desporto que escolhi praticar seja jogado com as mãos, e posso não me lembrar de nenhuma data de aniversário, mas sei quem marcou o segundo golo da vitória da minha equipa no campo do adversário naquela 13a jornada do campeonato nacional de 1997/98. Não sei em que dia comecei « oficialmente » a namorar, mas sei que conheci a minha mulher num dia em que a minha equipa perdeu uma Taça de Portugal.



 Mas não é por isso que perder com a França dói assim tanto. Não é por isso que a noite já vai longa e o sono parece ter ficado perdido algures na escuridão. 

Também não é a mesma dor duma derrota da minha equipa de eleição, pois essa dor é muito mais aguda e doentia do que esta. E esta é uma dor recente, uma dor nova, uma dor que desconhecia ter em mim, mas é uma dor mais vaga e duradoura. 

 
Portugal já perdeu antes, no futebol e não só, e nunca foi motivo de insónia e cada derrota foi aceite e assumida de forma pacífica.


 Portugal organiza um Campeonato da Europa, o país mobiliza-se de forma nunca vista atrás dos nossos rapazes, perde com a Grécia na final e até aí a sensação não foi tão amarga. 


Portugal (só mesmo Portugal) faz um Euro medíocre em França, e consegue ganhar a única grande competição da sua História e a alegria é imensa, mas contida. 


Nós, em Portugal, temos esta particularidade de nos ser inculcada uma clubite extremamente tribal que nos impede de realmente sofrer a bom sofrer com a Seleccao da mesma forma que sofremos com o nosso clube.


Gostamos que Portugal ganhe mas somos incapazes de realmente gostar deste ou daquele jogador, seja porque joga num rival, seja porque não apreciamos o penteado, ou as tatuagens… somos incapazes de criar uma empatia total com a seleção (e também não somos os únicos).


E comigo nunca foi diferente… até emigrar.


Passei a amar o Félix (que abomino), o Ronaldo (que me irrita), com a mesma intensidade que amo o Diogo ou o Bernardo, pelo menos naqueles 90 minutos em que envergam a camisola do meu país. Eu, que nem morro de amores pelo Ronaldo actual (irrita-me mesmo muito, a sério) sou capaz de usar truques de karaté (modalidade que nunca pratiquei) para o defender de más línguas no país onde resido. 


Recordo-me muitas vezes duma frase associada a jogos da Seleccao, isto é, a derrotas da Seleccao em grandes competições:


« Tenho pena dos emigrantes… ».


Aquela frase batida que todos ouvimos durante toda a vida a cada fracasso dos nossos rapazes, quando as Alemanhas, as Espanhas, as Itálias, as Bélgicas e, sobretudo, as Franças desta vida nos despacham das competições - e depois vamos dormir como se nada fosse e acordar no dia seguinte como se nada se tivesse passado - passou a ter um peso diferente para mim. E isto não tem sequer a ver com os países que nos acolheram e que, em tantos casos, tão bem nos tratam. 


Não é porque perdemos no futebol que as pessoas decidem que afinal nos podem espezinhar. Está bastante enraizado nos diferentes países recheados de emigrantes portugueses um respeito sincero pela nossa forma de ser, de estar, pela coragem, pela capacidade de trabalho e de adaptação que todos carregamos aos ombros. 

Perder assim, desta forma sistemática, não dói porque os « outros » estão só à espera de nos ver tropeçar para vir apontar-nos o dedo e rir quando já estamos no chão, longe disso. Isso é o que fazemos uns aos outros durante todo o ano, no desporto (e na política). 


Dói duma forma diferente. 


Imaginem isto: imaginem que tiveram de largar tudo o que sempre sonharam que seria a vossa vida. Que tiveram de viver para sempre longe daquilo que sempre conheceram como o vosso lar. Que deixaram para trás família que só podem ver muito raramente; amigos que provavelmente ficam reduzidos a uma mão cheia, com sorte, porque deixam de estar presentes nas vidas deles como dantes e toda a gente sabe que “longe da vista, longe do coração”. Que de repente, seja por que razão for, tiveram de meter pés a caminho, partir para culturas diferentes, formas de estar distintas, para uma língua nova, para uma outra realidade. Que tiveram de passar pelo processo de não dominarem uma língua e terem dificuldade em pedir algo tão simples como uma orientação quando se perderam numa nova cidade. Ou que tiveram vergonha de falar uma língua que ainda não dominam para não troçarem de vocês, ou com pânico de não se conseguirem fazer compreender. 


Imaginem que, apesar de saberem ser impossível (porque a vida ficou muito melhor), sonham tantas vezes, a dormir ou acordados, em poder regressar um dia a casa. Poder ter os « vossos » por perto, e envelhecer com eles, e ver os filhos deles crescer, e que os vossos filhos cresçam com eles. Estar por perto quando eles precisam e tê-los ao lado quando vocês mais precisam deles.


E de repente vem um Campeonato da Europa, ou do Mundo, e aqueles rapazes, e aquelas camisolas, e aqueles outros emigrantes, como vocês, nas bancadas a cantar o hino com uma emoçao desmedida. É quase como se nos tivessem dado a missão de proteger aquelas quinas ao peito e de lhes dar força, nós que vivemos a nossa portugalidade aqui ao longe. De Portugal enviam-nos uma equipa e nós aqui estamos para cuidar dela. E nós temos orgulho nessa missão, até porque não sabemos quando nem se vamos poder voltar a assumi-la. Porque se eu e a Joana somos a primeira geração da nossa família a estar aqui em França, e fazemos questão de ter o português como língua oficial do nosso lar, e mantemos as pontes com Portugal sempre escancaradas e desimpedidas, sabemos que a geração seguinte e a geração depois dessa já não vão partilhar dessa portugalidade. Já vão ser um dos milhares de « Silvas » por essa Europa fora que têm um nome tão português mas que já nem português falam porque já vão na 3a geracao. 


Estes são os nossos momentos de portugalidade e de a passar aos nossos descendentes, sabendo que ela se vai diluindo de geração pra geração. Falamos de portugalidade (que eu nem sei se é uma palavra real, mas se não é, devia ser, e portanto considerem-se autorizados a utilizá-la) não dum patriotismo bacoco, daquele cantado nos hinos nas manifestações políticas, daquele patriotismo bafiento, fascista dos Venturas e dos Mários Machados, porque nós temos orgulho num Portugal que saiba cuidar dos seus imigrantes como cuidam de nós cá fora; não, é uma sensação de pertença a uma causa, um regresso a “casa” mesmo estando longe, uma oportunidade de andar pela rua fora de cabeça ainda mais erguida. 

É altura de ouvir a admiração dos outros pelos nossos, e reforçá-la, este país pequenito que já dominou meio mundo e que agora se vai segurando para não se estatelar, mas que tem gente de fibra e cheia de qualidade, uns a trabalhar de sol a sol, outros com a bola no pé. Este país de Ronaldos e Ronaldas, de Brunos e Brunas, de Joões e Joanas, uns metidos dentro daquele rectângulo à beira-mar plantado, outros espalhados por esse mundo fora. É esta altura de ir na rua, aqui onde vivemos, e ver uma senhora a passear o cão com uma bandeira minúscula de Portugal presa no chapéu e querer enche-la de beijos, e dizer-lhe que ela é tão maravilhosa ali a passear o seu cão, que aquela bandeira é tão bonita; é passar pelo senhor de mão dada com os dois filhos, ambos com camisolas da Seleção, dar-lhes uma piscadela de olho e um polegar para cima e sentir a explosão de alegria do sorriso dos catraios porque sabem que eu também sei o que eles sentem e que partilhamos aquela paixão assolapada, como se fosse um segredo só nosso (ainda que não sejamos obrigados a manter segredos por aqui, volto a reforçar). Estas pessoas com quem nos cruzamos passam a ficar mais perto de nós: representam família e os amigos que deixamos para trás, e que eles decerto também deixaram. 


Portugal perde e o mundo não acaba, claro. Ninguém nos cai em cima. Não andamos pela rua a levar com pedras e cuspidelas. Poderemos ter alguns ares condescendentes de comiseração quando formos para o trabalho na próxima segunda feira (e poderemos ter de nos segurar para não responder torto ou dar umas murraças num ou noutro atrevidote) mas isso não é nada de mais.


O que chateia é esta sensação de normalidade no desaire. De sermos tanto e termos tão poucochinho. Melhor dizendo, de podermos ser tanto e ficarmo-nos sempre pelo “quase”. Por ganharmos na única vez em que se calhar nem merecíamos assim tanto, e por não fazermos por o merecer quando temos tudo a nosso favor. 


É normal Portugal perder, por muito que nos custe. Durante anos convenceram-nos (e convencemo-nos) de que somos pequenitos e que só com muita sorte é que conseguimos brilhar. Então convenceram-nos (e convencemo-nos) de que somos os Davids destas histórias, e sonhamos em derrubar os Golias. Contudo, por muito que nos vendam até ao vómito a história do David que deixa o Golias estatelado, somos todos adultos o suficiente para saber que o Golias vai ganhar 9 em cada 10 batalhas, às vezes nem isso.


Custa-nos muito saber que Portugal podia ser um Golias daqueles que faz saber aos Davids que não vale a pena sequer tentarem a sua sorte, que nem lhes apareçam no raio de visão, mas opta por vestir a pele do mais frágil, talvez por ainda não ter compreendido quão forte realmente é, ou pode ser.


E para nós, aqui longe, era tão importante que estes rapazes percebessem a fibra de que somos todos feitos.


Imaginem só, quando eles o perceberem, quão alto se erguerão as nossas cabeças e quão orgulhosos e confiantes envergaremos a nossa portugalidade espalhados que estamos por esse mundo fora. 
Não é caso para se ter “pena dos emigrantes”, mas foda-se… seria tão bom sermos gigantes de vez em quando em vez de preferirmos continuar pequenitos.